Lembra no Super Nintendo, quando o Mario ou o Luigi morriam pela última vez e acabavam todas as 5 vidas que eram possíveis se você não corria atrás de conseguir mais? Aí o jogo se encarregava de resetar e começava tudo de novo e a frustração e a raiva que você sentia era inimaginável? E você jogava a merda do controle longe?
Pois é.
É mais ou menos assim que um depressivo crônico se sente quando seus remédios acabam e esquece de pegar outra receita com o psiquiatra.
Você sente raiva, resignação, frustração e pensa "por que eu não peguei a merda da receita antes??"
É quase como atingir o Nirvana quando sua situação mental se encontra virtualmente estável e feliz. NORMAL. Como quase todos os seres humanos na face da Terra se encontram diariamente. Só que é um estado falso. À base de remédio. De química. E aí você lembra que está há, sei lá, 10, 15, 20 dias sem a porra da sua pílula mágica, sua droga da felicidade, seu remedinho, SUA VIDA NUM COMPRIMIDO.
E se desespera por que foi burra o suficiente pra deixar chegar nesse ponto pela ENÉSIMA vez.
Tenho 27 anos, completo 28 em agosto. Deram nome a essa desgraça na minha vida aos 14. Não me lembro exatamente. Meu pai foi quem bateu o martelo da desconfiança, porque ele teve um episódio dessa descida ao inferno quando tinha exatamente a minha idade. Foi ele quem reconheceu que eu estava lá passeando na morada no capeta. Mas começou muito antes. Desde muito criancinha eu sabia que tinha algo de errado com a minha felicidade. Que eu era diferente das outras crianças.
Já tomei Rivotril, Lexotan, Frontal e agora estacionei em 0,5mg de Alprazolam pra crises de ansiedade. Tem funcionado muito bem. Em crises agudas de TAG pulo pra 1g, o suficiente pra eu não sair vomitando e tendo ataques de pânico por aí. Pra depressão já foram Fluoxetina, Paxoretina e Citalopram. Agora, nos últimos meses, meu último e AMADO psiquiatra, Dr Ivan, me colocou no Escitalopram, 20mg. Também fizemos uns testes e descobri que fui muito bem sucedida nos 200mg diários de Topiramato. Funciona pra um monte de coisa. Age princialmente em epiléticos e viciados em drogas. Mas foi descoberto que tem zilhões de outros benefícios. No meu caso serve como estabilizador de humor, potencializa o efeito ansiolítico e, como com os adictos em drogas, age como anticompulsivo em mim.
Ah sim, esqueci de dizer que além disso tudo, lido também com uma leve/moderada compulsão alimentar. De todos os males, esse é o menos pior. A balança agradece.
Me sinto uma cobaia. Mas fazer o quê? Não posso desistir. Mentira, posso. A maioria das vezes a vontade que dá é fazer isso. Passam-se 20 dias sem a pílula mágica, que por algum motivo eu deixo de tomar (geralmente quando acaba e esqueço de pedir a receita - vide o primeiro parágrafo), que eu só quero é morrer sem dor e acabar com esse sentimento de inutilidade e fracasso. Não sou uma depressiva severa. Mas não tenho uma arma com uma bala dentro. E nem coragem pra isso. Mas tenho o amor da minha mãe pra me lembrar que tenho uma família que me ama e que vai chorar muito se eu realmente fizer isso.
E isso me bota de volta no lugar. Mesmo sabendo que eles me acham um zero a esquerda, a ovelha negra da família.
Desde uns 15 dias antes do início da Copa do Mundo que estava sem meu Êxodus (o nome comercial do Oxalato de Escitalopram). E a Copa já se encaminha pro fim. Quer dizer, já tem quase 1 mês e meio que estou sem minhas bolinhas mágicas. Nem me pergunto mais por que fiquei tanto tempo sem elas, já sei a resposta: auto-sabotagem. Medo de ficar boa. Sim ou com certeza? Absolutamente.
Sou rainha nesse negócio de auto-boicote.
A Copa me fez bem, ocupou um pouco minha cabeça. Desviou um pouco meu foco. Ri. Quando eu rio eu me sinto viva. É uma coisa que me faz bem demais.
Nos primeiros 15 dias eu fiquei bastante entretida com a quantidade de estrangeiros que tinham na cidade. As fantasias, as coisas engraçadas, os vídeos, a bagunça. A festa me deixou distraída.
Até que de repente senti o êxodus do Êxodus. Um buraco apareceu debaixo de mim.
Liguei pro Dr Ivan aos prantos, semana passada, apavorada pedindo pelamordedeus A RECEITA, A TAL RECEITA!!! Claro que ele me deu uma bronca. "Como que você ficou tanto tempo sem o remédio, Bianca??? Não pode!!! Tem de 20, compra amanhã! Vem aqui amanhã cedo buscar! Toma logo duas caixas pra não precisar vir aqui por 2 meses!"
Comprei. Li a bula. Primeiro dia, efeitos colaterais certeiros: Boca seca, náuseas, sonolência diurna, nariz entupido e coriza. Tô há 3 dias enjoada, não querendo sair de casa e bebendo litros e litros de água. Além de deprimida, um mal-estar do cacete. Uma depressão piorada, digamos assim.
Sempre esqueço que quando fico mais de 20 dias sem o remédio, ele some totalmente do meu organismo e ai vem o O RESET do cérebro. Quando eu volto a tomá-lo, como estou fazendo agora, meu corpo demora cerca de mais 15 a 20 dias pra voltar a se habituar a essa química. Esse tempo é o mais revoltante de todos, que vai demorar mais um monte de dias pra pílula da felicidade fazer efeito pra chegar naquela fase que você estava. Exatamente como Mario e Luigi, lá do início do texto, quando começam felizes e contentes no menu do Super Mario Bros. e você puto da vida que vai ter que começar tudo de novo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário