quarta-feira, 16 de julho de 2014

Agridoce

Não constumo ler e gostar de poesias.
Ansiedade e depressão em letras e versos agridoces.

A um ausente 
Carlos Drummond de Andrade

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste

terça-feira, 15 de julho de 2014

Volta, Copa!

Alemanha venceu! Merecido!
Os argentinos invandiram a cidade! Estavam hilários!
Dos holandeses eu senti pena, muita! Também mereciam! Fiquei dividida!
A seleção brasileira, coitados, passaram vergonha.

Mas quer saber?

Não esperava que esse evento poderia trazer tanta gente de fora, de tantas nacionalidades, culturas, etnias, credos e cores diferentes.
Num dia de jogo do Brasil, pra chegar mais rápido em casa, cortando caminho por Santa Teresa, eu e meu pai demos carona pra dois iranianos que não conseguiam táxi, muito gente boas, aliás. Até que um deles perguntou: "Por que no jogo dos EUA x Portugal vocês brasileiros estavam torcendo pros EUA? Vocês tem algum problema com os portugueses?" Aquela pergunta meio que me pegou de surpresa, e respondi que não, que nós brasileiros estávamos torcendo pelos times mais fracos e pelos times do continente americano, e também que agora nos vingaríamos dos europeus pela colonização sangrenta da América pelo futebol! Até que ele disse: "É verdade, eu senti isso. Os brasileiros não tem nada contra ninguém. Vocês aceitam todo mundo muito bem. Nunca senti isso em nenhuma outra parte do mundo! Vocês são muito calorosos! E muito obrigada pela carona! Não precisava, a gente dava um jeito!"
Eu gostei do que ouvi daquele iraniano. Eu gostei de saber que o meu país é conhecido por não odiar ninguém. Mas claro, disse que a nossa rixa com os argentinos é somente no futebol. Não os odiamos e vice-versa. Ele entendeu e riu.

Num outro dia chuvoso, ainda na primeira fase dos jogos, estava num aniversário na casa de uma amiga que o marido dela trabalha numa multinacional que recebeu muitos estrangeiros pra trabalharem aqui durante o Mundial. Nisso, chegaram dois alemães amigos dele muito simpáticos e fiquei conversando com eles. Disseram basicamente a mesma coisa da cidade que os iranianos. A cidade é bem cara, o trânsito é caótico,  mas que os cariocas são muito ativos, estavam se sentindo bastante seguros (ok, isso sabemos que foi tudo armado para gringo ver. deixei passar.), e que somos muito legais, receptivos e que pretendiam voltar pra conhecer mais o nosso país.

Confesso. Em ambos os casos, não pude conter minha lisonja e supresa em ouvir pessoas falando tão bem do nosso país. Em ambos os casos, todos eles disseram que viram na tv, notícias das nossas desgraças. As grandes manifestações, a polícia sem limites, as altas taxas de criminalidade, a grande propaganda negativa que é feita do Brasil lá fora. Todos eles ouviram de parentes e amigos que era loucura vir pro Mundial aqui. E vieram. E se surpreenderam.

Eu já viajei e viajo bastante. Posso dizer que NENHUM país é perfeito. Todos tem problemas. E problemas sérios. Se não é assassinato é uma taxa altíssima de suicídio, população depressiva e grupos neo-nazistas. Se não é analfabetismo, é estupro. Se não é uma economia em crise, é uma gorda quantidade de impostos. Se não é uma população com fome, é um país que você não sabe o que acontece lá dentro.

Embora o Brasil tenha praticamente TODOS esses problemas e muito mais, eu não consigo ter síndrome e vira-lata e achar que ele seja o pior país do mundo. A gente consegue rebolar e conviver com todos eles. A gente consegue ajudar e ser ajudado.
A gente consegue ser O ÚNICO PAÍS DO MUNDO que não tem problema com nenhuma outra nação do planeta.
Enquanto o Oriente Médio vive em guerra desde que o mundo é mundo, os EUA invadem qualquer país por causa de qualquer coisa, a Rússia vive se estranhando com suas ex-colônias soviéticas, a Coréia do Norte tá louca pra tacar uma bomba em alguém, a gente só brinca de brigar com a a Argentina por causa de futebol e para por aí também, enquanto até eles disputam as Malvinas com a Inglaterra. Um pedaço de terra medíocre.

Aí veio a Copa do Mundo pra dar um tapa na cara dos brasileiros e ensinar a todos nós como nosso país é bem quisto e bem amado pelos gringos que aqui passaram.
Como a própria seleção alemã, mesmo tendo sido nosso algoz, foi desejada pelo Brasil em vencer a Copa e isso ficou atravessado na garganta dos argentinos.
Nós os tratamos bem e eles, mesmo nos enfiando 7 gols em 90 minutos, nos respeitaram como ninguém mais o fez. Isso não tem preço.

Por todos esses motivos, eu amei a Copa. Amei ver a felicidade dos estrangeiros. E digo: VOLTA, COPA!!

sábado, 12 de julho de 2014

Mais um carimbo tão aguardado!

Hoje, 8 dias após reiniciar meu tratamento com o Êxodus, alguns dos efeitos colaterais passaram e outros continuam. Aquele enjôo chato e a sonolência passaram definitivamente. A boca seca e o nariz entupido....bom, esses eu já sabia que teria que conviver. Mas tudo nessa vida se ajeita!
Meu humor também já tá outra coisa! Ainda não me sinto aquela pessoa vivendo a felicidade plena. Entretanto, não tenho tido mais pensamentos sombrios suicidas. Isso já é algo extremamente positivo por si só. Isso tudo em apenas 8 dias! Digam o que quiserem, mas abençoada seja a indústria farmacêutica!

Só que nisso tudo, uma notícia em particular deve ter acelerado minha melhora. Tenho quase certeza disso.
Uma viagem vai se concretizar. Há 14 anos minha família não viaja junto.
Somos 5.
Meus pais, que estão há 30 anos juntos, sendo 29 de casados. E minhas duas irmãs mais novas.
As idades de nós três são muito próximas, o que não necessariamente é bom. Eu com quase 28, a do meio com 26 e a caçula com quase 25. Na verdade, isso contou foi muito contra. Não somos nada cúmplices. Elas são bastante entre elas. Eu sou completamente peixe fora d'água. Enfim, assunto pra outro tópico.
Apesar dessa distância fraternal, essa viagem é bastante esperada pra família toda.

O destino escolhido foi a Patagônia Argentina.

Glaciar Perito Moreno

Um sonho desde a adolescência.
Pra quem gosta de viajar, é necessariamente um destino obrigatório. Uma beleza natural dessa não tem preço. Relativamente barato e perto.
Muito gelo, muito frio, bastante neve, argentinos fanfarrões no pós-Copa (post-escrito antes da final da Copa... Ainda não sabemos quem vai ganhar, tomara que a Alemanha, né?), baleias, pinguins, trekking nas geleiras, icebergs, paisagens absurdas, passeios de navio que vão até a Antártida...... e as pessoas ainda vão pra Miami?????

Eu amo o mundo <3

Uma das coisas que mais gosto de fazer na vida e que faz minha depressão desaparecer em questão de minutos.
A expectativa de saber que vou conhecer um lugar novo na Terra preenche minha alma. Pode ser praia, montanha, cidade, roça, deserto, gelo, mar, não importa! O importante é o desconhecido, o novo. Já basta minha mente mais do que conhecida, vivida, vista, revista, pensada do avesso e sombria. Quero o colorido, o vivo, o novo, o diferente pra me dar férias de mim mesma. Viajar pra mim não tem preço que pague.
Com a minha família, apesar de todas as nossas diferenças, tem uma importância a mais.

Nem minha TAG aparece. A ansiedade que sinto quando sei que vou viajar pra um lugar que quero muito é gostosa, positiva e saudável. Me faz sentir viva e agitada. Me faz querer arrumar as malas, visitar sites de viagem, cotar o câmbio e planejar meu pé na estrada da forma mais organizada possível e não pensar em mais nada. Sinto como se fosse o jeito mais estável de passar o tempo sem desequilíbrio emocional. Como se fosse assim a mente de uma pessoa "normal", não-portadora dessa doença. Me sinto livre pra viver.

El Calafate e Ushuaia.
Partimos no final de agosto e ficaremos uma semana somente. Afinal, somos 5 pessoas.
As coisas melhoram quando a gente quer! É difícil, mas tem que querer!

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Reset no cérebro.

Lembra no Super Nintendo, quando o Mario ou o Luigi morriam pela última vez e acabavam todas as 5 vidas que eram possíveis se você não corria atrás de conseguir mais? Aí o jogo se encarregava de resetar e começava tudo de novo e a frustração e a raiva que você sentia era inimaginável? E você jogava a merda do controle longe?
Pois é.
É mais ou menos assim que um depressivo crônico se sente quando seus remédios acabam e esquece de pegar outra receita com o psiquiatra.
Você sente raiva, resignação, frustração e pensa "por que eu não peguei a merda da receita antes??"
É quase como atingir o Nirvana quando sua situação mental se encontra virtualmente estável e feliz. NORMAL. Como quase todos os seres humanos na face da Terra se encontram diariamente. Só que é um estado falso. À base de remédio. De química. E aí você lembra que está há, sei lá, 10, 15, 20 dias sem a porra da sua pílula mágica, sua droga da felicidade, seu remedinho, SUA VIDA NUM COMPRIMIDO.
E se desespera por que foi burra o suficiente pra deixar chegar nesse ponto pela ENÉSIMA vez.

Tenho 27 anos, completo 28 em agosto. Deram nome a essa desgraça na minha vida aos 14. Não me lembro exatamente. Meu pai foi quem bateu o martelo da desconfiança, porque ele teve um episódio dessa descida ao inferno quando tinha exatamente a minha idade. Foi ele quem reconheceu que eu estava lá passeando na morada no capeta. Mas começou muito antes. Desde muito criancinha eu sabia que tinha algo de errado com a minha felicidade. Que eu era diferente das outras crianças.

Já tomei Rivotril, Lexotan, Frontal  e agora estacionei em 0,5mg de Alprazolam pra crises de ansiedade. Tem funcionado muito bem. Em crises agudas de TAG pulo pra 1g, o suficiente pra eu não sair vomitando e tendo ataques de pânico por aí. Pra depressão já foram Fluoxetina, Paxoretina e Citalopram. Agora, nos últimos meses, meu último e AMADO psiquiatra, Dr Ivan, me colocou no Escitalopram, 20mg. Também fizemos uns testes e descobri que fui muito bem sucedida nos 200mg diários de Topiramato. Funciona pra um monte de coisa. Age princialmente em epiléticos e viciados em drogas. Mas foi descoberto que tem zilhões de outros benefícios. No meu caso serve como estabilizador de humor, potencializa o efeito ansiolítico e, como com os adictos em drogas, age como anticompulsivo em mim.
Ah sim, esqueci de dizer que além disso tudo, lido também com uma leve/moderada compulsão alimentar. De todos os males, esse é o menos pior. A balança agradece.

Me sinto uma cobaia. Mas fazer o quê? Não posso desistir. Mentira, posso. A maioria das vezes a vontade que dá é fazer isso. Passam-se 20 dias sem a pílula mágica, que por algum motivo eu deixo de tomar (geralmente quando acaba e esqueço de pedir a receita - vide o primeiro parágrafo), que eu só quero é morrer sem dor e acabar com esse sentimento de inutilidade e fracasso. Não sou uma depressiva severa. Mas não tenho uma arma com uma bala dentro. E nem coragem pra isso. Mas tenho o amor da minha mãe pra me lembrar que tenho uma família que me ama e que vai chorar muito se eu realmente fizer isso.
E isso me bota de volta no lugar. Mesmo sabendo que eles me acham um zero a esquerda, a ovelha negra da família.

Desde uns 15 dias antes do início da Copa do Mundo que estava sem meu Êxodus (o nome comercial do Oxalato de Escitalopram). E a Copa já se encaminha pro fim. Quer dizer, já tem quase 1 mês e meio que estou sem minhas bolinhas mágicas. Nem me pergunto mais por que fiquei tanto tempo sem elas, já sei a resposta: auto-sabotagem. Medo de ficar boa. Sim ou com certeza? Absolutamente.
Sou rainha nesse negócio de auto-boicote.
A Copa me fez bem, ocupou um pouco minha cabeça. Desviou um pouco meu foco. Ri. Quando eu rio eu me sinto viva. É uma coisa que me faz bem demais.
Nos primeiros 15 dias eu fiquei bastante entretida com a quantidade de estrangeiros que tinham na cidade. As fantasias, as coisas engraçadas, os vídeos, a bagunça. A festa me deixou distraída.
Até que de repente senti o êxodus do Êxodus. Um buraco apareceu debaixo de mim.
Liguei pro Dr Ivan aos prantos, semana passada, apavorada pedindo pelamordedeus A RECEITA, A TAL RECEITA!!! Claro que ele me deu uma bronca. "Como que você ficou tanto tempo sem o remédio, Bianca??? Não pode!!! Tem de 20, compra amanhã! Vem aqui amanhã cedo buscar! Toma logo duas caixas pra não precisar vir aqui por 2 meses!"
Comprei. Li a bula. Primeiro dia, efeitos colaterais certeiros: Boca seca, náuseas, sonolência diurna, nariz entupido e coriza. Tô há 3 dias enjoada, não querendo sair de casa e bebendo litros e litros de água. Além de deprimida, um mal-estar do cacete. Uma depressão piorada, digamos assim.

Sempre esqueço que quando fico mais de 20 dias sem o remédio, ele some totalmente do meu organismo e ai vem o O RESET do cérebro. Quando eu volto a tomá-lo, como estou fazendo agora, meu corpo demora cerca de mais 15 a 20 dias pra voltar a se habituar a essa química. Esse tempo é o mais revoltante de todos, que vai demorar mais um monte de dias pra pílula da felicidade fazer efeito pra chegar naquela fase que você estava. Exatamente como Mario e Luigi, lá do início do texto, quando começam felizes e contentes no menu do Super Mario Bros. e você puto da vida que vai ter que começar tudo de novo.